segunda-feira, maio 25, 2009

Supremacia da razão?


Boa parte de nossas expectativas e frustrações com relação às condutas dos outros está fundada na crença de que a razão é característica indissociável do conceito de ser humano. No mínimo, acredita-se que um ser humano adulto – portanto plenamente desenvolvido - deveria ter a razão como princípio do seu agir.
Será que isso não parte de uma concepção vaidosa a respeito do que somos em essência?
Antes de continuar os artigos sobre a história da filosofia aqui no blog, resolvi falar um pouco sobre Arthur Schopenhauer.
Tal filósofo ficou mais conhecido a partir da edição da obra “A Cura de Schopenhauer”, de Irvin D. Yalom, que retrata o caso de um homem que se serviu das suas lições para, evitando situações que despertassem “vontades”, curar compulsão sexual de que sofria. O livro, interessante, não passa uma imagem das mais agradáveis acerca do filósofo, pois enfoca essencialmente seu lado pessimista e sua personalidade difícil. Aliás, a personalidade de Schopenhauer, se avaliada por um psiquiatra moderno, muito possivelmente revelaria distimia, mau humor crônico.
Ocorre que, defeitos à parte, Schopenhauer, após um início difícil, tornou-se um dos filósofos mais respeitados pelos maiores pensadores que depois dele surgiram.
Há quem diga que a concepção moderna completa acerca do que é o ser humano baseia-se nos ensinamentos de Nietzsche, Freud e Marx. Levando-se em consideração, entretanto, que Nietzsche e Freud foram grandemente influenciados por Schopenhauer – Hegel foi o inspirador de Marx -, poder-se-ia colocar o mal-humorado filósofo no lugar de Nietzsche e do conhecido psicanalista.
O que Schopenhauer disse de tão importante?
Dentre outras coisas, justamente o que causou dificuldades em sua carreira acadêmica: que Hegel estava errado ao idealizar a razão.
Schopenhauer dizia que algo de caótico estaria na forma como apreendemos a dita realidade, que nossa vontade - vontade não racional - refletiria e limitaria a parcela da verdade última que podemos acessar, com isso ferindo a sensibilidade de quem via no homem a imagem e semelhança de Deus.
Assumindo alguma verdade no que disse Schopenhauer, vejo certa importância disso, por exemplo, para a avaliação acerca da razoabilidade do que esperamos de pessoas que vivem em condições subumanas - portanto que não receberam de ninguém os benefícios da civilização, nem mesmo concepções que levam à adequação do nosso comportamento.
Também daí que o que é óbvio para nós nem sempre é óbvio para os outros; que os psicólogos dizem que não podemos ficar irresignados por outrem não fazer o que dele esperamos se antes isso não pedimos; ainda, que temos que nos preocupar com as questões sociais e com a educação se quisermos garantir um mínimo de segurança para nós mesmos e para quem nos cerca no futuro.
Não se trata de tornar vítima quem age errado, mas de assumirmos como imperioso o dever de educar sempre, de evitar a confortável posição de ficar apontando o dedo para os outros quando nós mesmos, favorecidos pela vida, deixamos de assumir a condição de exemplos e de alcançar dignidade a nossos semelhantes.
Na verdade, se nós, pessoas privilegiadas, não nos preocupamos com a dignidade dos outros em situações nas quais deveríamos intervir mesmo com algum sacrifício pessoal, o que esperar de quem nem sabe o que é dignidade?
De qualquer maneira, enquanto isso, enquanto não provamos que somos tão evoluídos como pensamos que somos, somente nos resta o Direito Penal como medida última, tanto para crimes monstruosos como para aqueles fatos cuja prática não chega a impedir ou tornar insuportável a vida em sociedade, mas que tornam mais difícil de administrar essa convivência.
Compreensível. Inevitável até.
Os jovens? Têm uma moratória. Têm o direito de serem objeto de pena até o dia em que atingem a maioridade, mesmo que pouco se faça em seu benefício enquanto isso.
Não é o ideal, mas é o que nos resta.
Ao contrário de Schopenhauer, contudo, ouso ser otimista. Creio que, ainda que lentamente, evoluiremos, em grande parte graças ao exercício da razão. 

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