quinta-feira, março 21, 2013

A vaidade

Mais uma reflexão que espero não seja interpretada como pretensiosa. Não quero pregar nada a ninguém, apenas divido pensamentos sobre problema que todos podemos enfrentar.

Alegoria de origem budista relata que buda da compaixão veio a este mundo e passou muitos anos, décadas ou séculos, gerando benefícios a outros seres. Quando estava prestes a retornar para onde veio, então, uma ponta de vaidade fez com que buscasse admirar sua obra. Pois o que viu foi que tudo parecia estar exatamente igual a quando ele aqui chegara. Isso fez com que se desconstruísse, quebrando em mil pedaços. Aconteceu, contudo, que, atento aos méritos do desafortunado buda, outro buda reconstruiu seu corpo, desta vez com mais braços, isso para que seu trabalho pudesse ser ainda mais proveitoso para os seres beneficiados.

Espero que tenhamos a sorte, todos nós, de alguém nos ajudar, mais cedo ou mais tarde, se enfrentarmos problema semelhante.  






Melhor, entretando, dentro dos limites do que podemos compreender e administrar, tentarmos evitar danos mais sérios originados da vaidade. Mesmo tão bem intencionados como o buda da alegoria, mesmo tendo preocupação em fazer o certo apenas por acreditarmos nele, não estamos livres de percalços a isso – ao surgimento da vaidade - relacionados.

Não quero particularizar a análise da questão, mas, para exemplificar o que vejo como causa de muitas dificuldades, saliento que nós, promotores de Justiça, por exemplo, somos vítimas fáceis da vaidade – não falo isso de modo pejorativo, como será adiante explicado -, ainda que cheguemos à função como pessoas humildes. Afora haver alguma dificuldade para que alcancemos o cargo - o que dá causa ao orgulho, irmão da vaidade -, exercemos função que faz com que passemos a ter ascendência, positiva ou negativa, sobre a vida de muitas pessoas da comunidade em que atuamos, não raro gerando benefícios – frequentemente de difícil percepção - à coletividade (ao escrever isso já sinto que tenho que tomar cuidado para não parecer vaidoso e acabar estragando a mensagem...).

A vaidade, com isso, pode começar a gerar prejuízos a partir do momento em que o promotor (ou qualquer outra pessoa em situação semelhante) espere reconhecimento pelos seus feitos. O reconhecimento, por razões variadas, pode não surgir, portanto havendo frustração.

Talvez seja ainda mais danosa pelo ponto de vista pessoal, entretanto, a hipótese de não só reconhecimento, mas elogios surgirem, e em profusão. Como dizem, elogios são perigosos porque podemos acreditar demais neles - poderíamos dizer o mesmo do poder.

Elogios podem decorrer de simples bajulação, de tentativa, por parte do bajulador, de manipulação de pessoa que pode afetar sua vida de alguma forma, tudo com a finalidade de obter facilidades diversas, mesmo que seja a manutenção de sua paz. Mas também podem ser sinceros, no sentido de que a pessoa que os faz realmente se sente agradecida àquele que intercedeu em seu favor ou agiu de forma que entendeu admirável.

De qualquer maneira, os elogios podem ser o começo de um problema se aquele que os recebe é pessoa suscetível a impressionar-se. Elogios geram compromissos nem sempre realizáveis, balizamentos de conduta nem sempre adequados. E criam expectativas nem sempre realizáveis, portanto, do mesmo modo anteriormente referido, surgindo frustração, a não ser que, por nossa natureza ou por escolha, adotemos o orgulho ensimesmado – uma variação mais estável de sensações geradas pela vaidade - como forma de nos tornarmos inacessíveis aos revezes advindos do eventual descumprimento de expectativas que mantemos, nossas ou de terceiros. O que também não me parece bom.

A culpa de tudo isso, evidentemente, não é dos elogios, estes meros detonadores eventuais de problema que está na nossa natureza. A culpa é da vaidade.

Não defendo, com toda essa argumentação, que deixemos de ter amor próprio.

Além disso, é claro que todos precisamos, vez ou outra, destacar algumas de nossas virtudes se quisermos atingir objetivos profissionais ou pessoais.

E também não quero indicar como inexistente o importante conceito de mérito, de se buscar garantir seja dado a César o que é de César, o que gera inequívocos benefícios à sociedade como um todo por incentivar aqueles cujos trabalhos a todos aproveitam.

Apenas tento tornar transparente batalha que eu mesmo faço para evitar que, no exercício de minha função e em minha vida pessoal, a vaidade torne-se motivo tão somente de sofrimento desnecessário em vista da desconsideração de minhas próprias limitações e dos reflexos negativos que esse sentimento pode gerar na relação com outras pessoas.

Para finalizar este post, meio que aproveitando o espaço após ter falado do budismo, coloco abaixo vídeo com sutra de grande relevância na filosofia budista. Ele não tem relação com o tema aqui discutido, mas com a reflexão budista sobre o que é a realidade.  



Um comentário:

  1. Acompanho seu trabalho desde que veio para substituir o promotor Francisco, e posso dizer que no decorrer deste tempo me tornei admiradora de seu trabalho, principalmente de continuar marchando corretamente dentro de um quartel inteiro marchando errado. Obrigado pelo valioso trabalho que vens realizando em nossa cidade, e por favor um apelo NÃO DESISTA.

    ResponderExcluir

Ocorreu um erro neste gadget