domingo, novembro 30, 2014

Uma reflexão, um causo e um pedido.


Queria, se me permitissem, iniciar com uma conversa tremendamente comprida para depois contar um causo e, por último, fazer um pedido. Faço o que faço – tutela de interesses coletivos – há muitos anos. Aliando-se isso à generosidade de alguns amigos, não raramente me vejo na posição de ter de conversar sobre corrupção e as investigações que lhe são pertinentes com Promotores de Justiça de várias comarcas e de variados tempos de carreira. Um dos pontos que seguidamente entram nessas trocas de ideia é alerta que faço no sentido da obrigatoriedade de o Promotor de Justiça sempre ter de se perguntar o que quer o cidadão que lhe procura para noticiar suposto ilícito.
Refiro-me à necessidade de perquirir de um modo inteiro quais são as verdadeiras intenções para além do que seja mais evidente dos que nos procuram. Ou seja, convém saber se o sujeito que vai à Promotoria, dá seu nome para o cadastro e, geralmente, enfrenta alguma fila para noticiar um ilícito, ao fim e ao cabo, não quer levar alguma vantagem para si. Falo, por exemplo, do sujeito que noticia algum ilícito de modo aparentemente despretensioso, mas pretendendo, na verdade, atacar determinado agente público integrante de grupo político adversário. Ou do sujeito que pretende ver declarada a nulidade de determinada licitação porque concorreu e perdeu, dado que seu preço era mais alto.
Mas não me entendam mal. Não acho que haja problema do sujeito procurar o Ministério Público por conta de interesse pessoal, seja ele político, econômico ou outro. A reflexão que verdadeiramente me desmotiva é a circunstância de que os sujeitos a procurar a Promotoria desinteressadamente apenas porque há algo errado a enfrentar constituem fauna cada vez mais rara, acho que em extinção mesmo.
Não canso de achar que essa desproporção, em alguma medida, é reflexo de um outro fenômeno que temos todos nós notado. Falo, evidentemente, de uma crise de moralidade que nos assola já há algum tempo. Para tudo resumir de uma maneira muito simples, essa crise se apresenta com a absurda insensibilidade que temos mostrado – mesmo eleitoral – diante de intermináveis notícias de ilícitos contra a probidade administrativa. Penso, então, se esse “desinteresse” por vir reclamar acerca de interesses públicos não é sintoma de uma mesma doença. Ou seja, se  não reclamamos desinteressadamente é porque, ao fim e ao cabo, a moda é pouco se importar para o “de todos”, desde que “o meu” esteja em dia.
Sempre que faço essa reflexão, há os que me contrariam. Discutem comigo a dizer que ainda há salvação e que ainda há desinteressados capazes de encontrar valor no que fazemos independentemente de seus interesses pessoais. Claro que como bom teimoso, sempre respondo a essas contrariedades com meu olhar pronto de descrédito, acompanhado de algum beiço, o que somente revela parte de infantilidade resistente no quase quarentão.
Todavia, essas contrariedades as vezes tomam forma a realmente me desconcertar, sendo que agora começa o causo que prometi. Essa semana busquei a Mariana na escola perto do meio-dia, era manhã de aula de reforço, e resolvemos ir ao supermercado. Íamos tentar comprar umas bebidinhas que gostássemos, típico programa que os pais tem com as meninas de oito anos escondido das mães.
Estávamos, então, no mercado quase vazio empurrando nosso carrinho. Foi aí que um senhor nos abordou, olhou-nos firmemente e me disse: “tu sabes que nunca te encontrei em lugar nenhum, mas queria te dizer uma coisa.” Daí fiquei meio estático e pronto para tudo. Afinal, estou acostumado a todo o tipo de enfrentamento, mas quando a Mariana está junto comigo a cautela se intensifica. A falar bem a verdade,  antevi que um único cruzado de direita – ao que sei das minhas aulas de boxe, é meu soco mais forte – seria suficiente a colocar o sujeito de traseiro no chão. Nessa mesma fração de segundo me vi, também, sentado numa cadeira da Corregedoria tendo de explicar ao Dr. Abruzzi porque eu agredira um sujeito no mercado.
Mas o que aconteceu em seguida foi justo o oposto. O sujeito, ainda me olhando firme, disse: “eu queria te agradecer por tudo o que tu fazes por nós. Acompanho o teu trabalho há muito tempo. Que Deus te dê muita saúde para que sigas nos defendendo.” Depois, o sujeito virou com seu carrinho e voltou ao corredor de onde veio, desaparecendo por entre as ofertas. A única coisa que consegui dizer foi um “obrigado” meio sem graça, dado que me tomou aquela sensação de quem esperava engolir um enorme trago de vinagre, mas se viu com um tanto do melhor capuccino do mundo na boca.
Encerrado o causo, queria agora fazer o meu pedido. Como escrevo este texto para que seja publicado na internet, por conta dos contornos da tecnologia atual guardo lá minha esperança de que o senhor do mercado leia este texto. Queria lhe dizer que meu “obrigado” sem graça somente saiu como saiu porque meu reflexo da hora tinha bastante mais relação com disparar meu melhor cruzado – nunca se sabe – do que me sentir agradecido. Depois, queria lhe dizer que fiquei verdadeiramente tocado com sua intervenção, especialmente porque não falava de algo que tinha lhe oferecido, mas de agradecimento que se vazava em interesse de todos, contrariando minhas reflexões mais pessimistas sobre como nosso mundo é egoísta atualmente.
Por último, queria também lhe agradecer pelo que aconteceu com a Mariana em seguida. Na verdade, ela não entendeu bem até hoje qual a minha profissão. Mas depois daquela ida ao mercado ela ficou achando que o pai dela é algum tipo de super-herói de desenhos que defende as pessoas que precisam. Na verdade, jamais quis ou pretendi tomar posturas heróicas como Promotor de Justiça, mas apenas fazer meu trabalho. No entanto, como pai, sempre tentei ser o herói da Mariana. E acho que pelo menos naquela manhã e por causa do desconhecido do supermercado, consegui.
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