segunda-feira, junho 06, 2016

Ali.

O "rodopio" de Foreman.
Há várias histórias muito curiosas que marcaram a vida e a trajetória esportiva de Muhammad Ali, ex-campeão mundial de boxe da categoria dos pesos pesados, falecido nessa semana. Aos que não sabem, Ali talvez tenha sido o lutador – quiçá o esportista – mais importante da história americana. É que não era apenas um boxeador extraordinário, mas se tratava de um sujeito que levava sua vida a partir de parâmetros que certamente o distinguiam dos demais.

O próprio Ali contava a seguinte história, fato que teria se dado logo após haver retornado das Olimpíadas de 1960, jogos nos quais ganhou a medalha de ouro. Ao que relata, teria entrado numa lanchonete e pedido um cachorro-quente. Daí que a atendente lhe respondeu:


- Nós não servimos negros aqui. 

- Mas eu não quero comer um negro. Quero um cachorro-quente – devolveu o campeão. 

É claro que ao se observar a conduta de Ali mais rapidamente entende-se haver respondido a atendente da lanchonete com chiste de ironia, o que, aliás, lhe era profundamente peculiar. Todavia, examinando-se tudo para além do cômico, a resposta de Ali revelava padrão de atitude que sempre teve com relação à própria vida. Foi um garoto nascido pobre, mas que, desde cedo, decidiu – e dizia isso à bandeira despregada – que seria o maior do mundo. Com efeito, Ali era sujeito que se recusava a permitir que as injustiças comprometessem seu comportamento e suas escolhas morais, qualquer que fosse a consequência. Então, dava aos entraves da vida respostas singelas como as do episódio do “cachorro-quente”, mas que se orientavam por valores bastante bem definidos, não importava quais fossem as consequências. 

E se não tenho razão, basta se examinar o acontecido mais importante na vida de Ali fora dos ringues. Em meados de 1967, o campeão foi convocado a alistar-se para servir à guerra do Vietnã. O boxeador, contudo, se recusou de maneira formal, tendo comparecido pessoalmente à junta de recrutamento no dia 28 de abril daquele ano a dizer que não embarcaria. O motivo para tanto era bastante simples:

- Não, eu vou não vou viajar dez mil milhas para longe de casa para ajudar a matar e queimar outra nação pobre simplesmente para dar continuidade à dominação dos senhores de escravos brancos das pessoas mais escuras mundo afora. 

Talvez haja quem encontre na recusa de Ali outros motivos que não a simples objeção moral à guerra. Na realidade, há os que cogitarão que o boxer temia as piores consequências do armistício. Há de se considerar, contudo, que naquela altura Ali já era um sujeito muito famoso, sendo quase garantido de que se embarcasse ao Vietnam não chegaria sequer perto da fronte. 

Há de se ponderar, ademais, que se ir para a guerra não representava grande risco para Ali, permanecer, por outro lado, custar-lhe-ia tudo. Não bastasse responder ao processo criminal respectivo pelo desatendimento à convocação, havendo risco real de ter de cumprir pena corporal, o Estado lhe tomaria o título mundial de campeão e lhe proibiria de lutar em território americano. 

Nada disso, contudo, o demoveu. Respondeu ao processo, perdeu os títulos e encarou a proibição de lutar. É claro que essa escolha se assenta num quadro circunstancial bastante significativo. Diga-se, por primeiro, que naquela altura as teses do libertarianismo – versão radical do liberalismo – afloravam de maneira significativa nos Estados Unidos, movimento que em 1974 redundou na publicação do clássico “Anarquia, Estado e Utopia” de Robert Nozick. 

Também compôs o caldo dessa decisão a forte influência que Ali sofria de Malcom X, naquela altura o mais importante ministro da religião nominada “Nação do Islã”. Cuidava-se de grupo religioso que pregava a segregação integral entre negros e brancos, defendendo, pasme-se, o eventual retorno dos negros à África se isso fosse possível. De tal compreensão se construía noção de verdadeira insurgência sistemática ao ordenamento jurídico, especialmente porque o compreendiam por forma de dominação exercida pelos brancos por sobre os negros. Por conta de tal convencimento religioso, aliás, foi que Ali abandonou seu nome de batismo, Cassius Marcellus Clay, para adotar o nome muçulmano. 

Todavia, para além de todas essas influências, havia uma semente de resistência que era própria de Ali, decorrente de força moral direcionada contra leis que reputava injustas. E esse convencimento foi mantido diante de quaisquer consequências. E é justo por isso, ademais, que Dworkin se vale da conduta de Ali para comentar o fenômeno da desobediência civil no clássico “Levando os Direitos a Sério. ” 

E nessa conjunção do exame da conduta boxer pelo filósofo, verifica-se, de modo preciso, a construção de verdadeiro elogio da força moral das recusas em atender comandos injustos, de colocar-se contra a conduta do Estado – comissiva ou omissiva – violadora do que nos pareça caro, mesmo que, para tanto, se tenha de violar a lei. Condutas como a de Ali em tais circunstâncias servem, primeiro, a gerar sensibilização moral dos que o observam, sendo que sua resistência em servir ao exército importou significativo contributo crítica desfechada contra a guerra, a qual, diga-se de passagem, redundou na pior derrota militar da história dos Estados Unidos. Ainda mais: a resistência de Ali refletiu, também, contribuição importante para a revisão da política de recrutamento então vigente. Com efeito, nos dias atuais, não mais há recrutamento compulsório. 

Confesso, então, que é verdadeiramente curioso pensar nesses episódios da vida de Ali nos dias de hoje, especialmente por conta da realidade verificada em nosso país. É que a despeito do sério quadro de instabilidade política e social que temos de suportar, falta-nos qualquer coisa que se assemelhe em termos de grandeza moral aos atos de resistência protagonizados pelo campeão recentemente falecido. 

A bem da verdade, tudo o que vemos são interrupções de estradas para o atendimento de motivações cada vez mais estranhas e particulares. E em tais situações, o peso do tal “protesto” é descarregado por sobre outros sujeitos feitos vítimas por conta do simples acaso de estarem tentando ir de um lugar ao outro. Acostumamo-nos, ademais, às enormes gritarias com relação a determinada situação política ou mesmo por conta dessa ou daquela violência verificada, indignação, contudo, que jamais ultrapassa o compartilhar de conteúdo em redes sociais ou, quando muito, acarreta a troca da foto de perfil por outra com dizeres simpáticos. Por fim, temo-nos acostumados com as tais ocupações de prédios públicos, escolas e outros, iniciativas que, ao meu juízo e com todo o respeito, não passam de arroubos juvenis por aventura. Falo, por exemplo, de escolas ocupadas por algo como dez marmanjos, tudo com o beneplácito dos professores e contando com a fragorosa indiferença da maciça maioria da comunidade de alunos. 

E se ainda não me fiz suficientemente claro, tenho por certo que se tais iniciativas cobrassem dos participantes – invasores de estradas, protestantes de facebook e invasores de prédios públicos – fração mínima do que a história cobrou de Ali – algo muito menor, diga-se, que a perda do título mundial dos pesados - os arroubos e as indignações se dissipariam muito rapidamente. Em outras palavras, falta-nos, e talvez seja esse o motivo do depauperamento social que nos encontramos, altivez moral que se traduza em atos verdadeiros de resistência. 

Talvez os que leem este escrito entendam que desejo transformar as simples manifestações em confrontos violentos ou algo assim. Estou muito longe disso, adianto. Todavia, assusta-me verdadeiramente o prognóstico de que vivemos nossas vidas sem a noção de que os direitos e os valores não estão prontos, mas dependem de construção. E tal construção, insisto, não será decorrente de manifestações de domingo, aventuras divertidas, de leniência e de passividade, mas de assumir o peso de ser o único e grande protagonista da sua própria vida, circunstância que, não raramente, reclama capacidade bem mais significativa de suportar a violência e ser compassivo do que ter de ser violento. 

Se meu argumento não convence, volto a Ali para provar meu ponto de vista. De todas as suas lutas, a que mais me impressionou foi a que travou com George Foreman, o mesmo sujeito que hoje usa de sua fama para vender grelhas elétricas. O combate se deu no antigo Zaire, atual Congo, justamente porque Ali se encontrava proibido de lutar nos Estados Unidos por causa de sua recusa de ir à guerra. 

Diante de um adversário mais jovem e muito mais forte, Ali suspeitou que como Foreman dispensava enorme energia nos primeiros rounds, sua capacidade de levar a luta até os assaltos mais adiantados restaria comprometida. Assim, resolveu permitir que o adversário literalmente lhe batesse em monólogo na primeira metade do combate, estratégia que terminou, diga-se de passagem, por inspirar o roteiro do filme “Rocky”, protagonizado por Sylvester Stallone. Ali limitou-se a tudo suportar com a esperança de que seu adversário eventualmente cansasse. Assim que Ali percebeu que sua estratégia era correta e que Foreman não mais se aguentava em pé, passou a lhe golpear como se devolvesse todas as agressões que sofrera nos rounds anteriores. Por fim, Foreman rodopiou no ringue e terminou indo à lona, submetido não apenas aos golpes, mas essencialmente à força de vontade de Ali. 

A partir de tal episódio toma-se, ainda, lição adicional do maior de todos os campeões. Ao se assistir a luta com cuidado, especialmente o round final, percebe-se um claro momento em que, após o tal rodopio, Foreman estava verdadeiramente desacordado em pé, vulnerável a receber derradeiro soco. Contudo, a despeito de haver levantado o punho, Ali simplesmente desistiu no meio do caminho. Anos depois, perguntado porque hesitara, respondeu: Naquela hora eu percebi que meu adversário já apanhara o suficiente. E aí, justo aí, se fez perceber a essência de sua genialidade: combinação de força moral e compaixão em justa medida.


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